Sair para uma viagem é sempre especial. Sair da cidade, deixar para traz as obrigações, o barulho, os carros em fila, a tortura do relógio. Ir ao encontro do novo, a estrada de terra, as casas de tijolos que contêm só o necessário, o verde e as montanhas, a água. Possível ouvir seu som..
Milho Verde é uma cidadezinha de cerca de mil e poucos habitantes, no norte de Minas Gerais, próxima de Diamantina e parte da Serra do Espinhaço. Região de cidades que já viveram do garimpo de diamantes e hoje sobrevivem como podem de algumas plantações e do turismo. Trabalha-se como guia, vendendo artesanato - usando a flora local como a sempre-viva, plantando arroz e mesmo realizando serviços na casa de um ou outro proprietário de terra. Dona Marta, que vive em Capivari, cidadezinha a 16km de Milho Verde, foi quem me contou um pouco da história da gente que vive ali.
Quando viajamos assim, fazendo nossa história com pedacinhos das histórias de outras pessoas, ela fica mais rica e interessante. Em Capivari encontrei um mercadino, o dos Prazeres, onde conheci a menina Eni. No sossego do seu trabalho, mem se empolgou com o movimento que eu e Custódio levamos, por fim, ao lugar. Com um certo ar indiferente à vida, e ritmo semelhante ao do lugar, nem ao menos saiu de trás do caixa - até a pesagem das frutas ficou por nossa conta - e sobre nós, o único comentário foi a respeito da altura dele e da "diferenteza" do meu nome.
Da lojinha de artesanato do grupo Sempre Viva, aos cuidados de Dona Marta, levei um colar com sementes da região, chamadas de lágrimas de Nossa Senhora. Conheci Ronnie e Keslei, filhos de Marta que seriam nossos guias até uma das cachoeiras, a Tempo Perdido. Depois de pedalarmos 16km de pura subida, achamos a traseira da pickup do Crisim um paraído, mesmo tomando chuva de granizo na cara.
Da portinha da cá, eu e Marta trocávamos espantos: ela com meu ânimo de vir de bicicleta por toda a estrada, e eu com ela, ao ouvir sua história e por morar ali e nunca ter ido ver a maravilhosa cachoeira. É engraçado como nos deslumbramos de tal maneira com uma paisagem que para os moradores dali é apenas "dizem qué bunitu memo".
Depois de 6km de carro e mais uns 4km de trilha a pé, chegamos! E é preciso mesmo um guia, ao menos para quem vai pela primeira vez. São 30 reais por grupo, que podem parecer caros, mas depois que se sabe da vida das pessoas ali a gente pensa que é até pouco. Enfim, começamos a ouvir o correr da água e o bater da queda nas pedras, que fica como uma chuva, abafada pelo mato ao redor. Passa-se por uma mata mais fechada e lá está... maravilhosa a queda, paisagem composta por árvores altas, areia branquinha e um enorme paredão. LINDA! O posso formado é fundo e dá pra mergulhar. Do outro lado é possível caminhar na areia e passar atrás ou entrar sob a queda. Com certeza o nome Tempo Perdido é por causa da beleza escondida em um ambiente onde o relógio parece ter parado.
Não conversei muito com os dois irmãos, tímidos e de poucas palavras, deles ficaram só o sorriso, olhar esverdeado de um e o rosto marcado e sereno do outro.
Em Milho Verde as cachoeiras acompanham a estrada de acesso principal. Umas são mais escondidas, outras possuem indicações. Conhecemos a Carijós, de poço fundo e queda pequena; a do Moinho, imensa queda, aliás 2 seguidas, com direito a poço, prainha, muitas pedras e o moinho de milho; e a Piolho, escondida entre casinhas simples de uma comunidade mais pobre ainda da região, mas que não tem poço limpo como as outras para se nadar.
Além da beleza natural - cachoeiras, trilhas e as montanhas e pedras do espinhaço - Milho Verde tem um ar especial de cidadezinha pacata, aquele que te deixa aconchegado. Casinhas simples, pousadas e igrejinhas, sendo a principal uma arquitetura a parte.
Come-se muito bem na cidade. A Lana abandonou BH por uma vida mais consciente, menos materialista e mais tranquila em Milho Verde, e levou com ela seu Toninho. Os dois juntos são donos de uma lanchonete que tem uma pizza maravilhosa. Os sanduíches possuem um toque especial, com ingredientes harmoniosos e pão feito por eles mesmos, acompanhados de sucos naturais deliciosos. O sorvete e o pé de moleque não tem igual! A comida da pousada do seu Morais é tudo de bom também, e sai por R$8,00 a refeição para se servir à vontade.
A estadia foi no anexo do Hotel Rancho Velho. E aconselho, porque Milho Verde é agitado de noite... os turistas fazem um barulhinho daqueles, e o anexo é um dos poucos lugares com quartos afastados do "tumulto". Para quem quer curtir a night também, vários barzinhos oferecem música ao vivo. O mais frequentado é o Armazém, fucnionando como espaço de camping, inclusive. O bar é grande. Tem mesinhas, rede, espaço aberto e fechado e o som rola até de madrugada.
Três dias deram só para abrir o apetite por Milho Verde...
tem muito lugar nesse mundão, vamos de pedacinho em pedacinho.
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